Rei absoluto da preferência entre foodies e badaletes em geral, o Joe Beef, inaugurado há dois anos num bairro fora do circuito turístico, é o tipo do lugar pseudodespretensioso. O décor é um sarro: banquetas de vinil, cabeça de búfalo no banheiro, piso de tábuas gastas, panos de prato fazendo as vezes de guardanapos, tudo com um jeito meio improvisado. A placa na entrada é bem pequena pra reforçar a ideia de lugar insider. Garçonetes não usam uniforme. O dono e chef David McMillan debruça os brações tatuados no balcão do bar enquanto bate papo com os clientes (todo mundo parece se conhecer). Os pratos são escritos numa lousa em vez de ser impressos num cardápio.
E, no entanto, o Joe Beef não tem nada de simplório. A comida, quase sempre deliciosa, mereceu elogios rasgados da mídia especializada e de jornais como The New York Times. Nota-se o frescor dos ingredientes até em drinques, como o caesar, tipicamente canadense, que mescla suco clamato (tomate com um saborzinho de marisco) e vodca, coroado com raiz-forte ralada na hora e um camarão. As ostras, especialidade da casa, são escolhidas e servidas com todo o cuidado do mundo. E os preços refletem o perfeccionismo culinário: uma entrada de camarões crocantes com flor de abóbora custa uns 40 reais; o carré de vitela com legumes para dois, uns 100 reais por cabeça.
Demorei um tempão para finalmente ir conferir em pessoa e, tamanha a expectativa, acabei me decepcionando um pouco. Meus tomates com atum e ovo poché poderiam vir mais salgadinhos e tenros. O mero, salteado à perfeição, casou bem com o picadinho de batatas com creme, mas parecia pedir um elemento mais fresco e crocante para cortar a gordura. Agora, se a comida às vezes desliza de excelente para apenas muito boa, o lugar, sempre cheio de gente descolada, é a mais pura tradução da cidade: informal, animado e um tantinho excêntrico.
McMillan fez escola. Chuck Hughes, um jovem chef que trabalhou sob sua batuta, abriu restaurante próprio seguindo estilo parecido. Assim como o Joe Beef, o Garde Manger tem endereço escondidinho, nada de placa na porta, menu rabiscado numa lousa, porções generosas, clima de festa. A especialidade são os "pratos" de frutos do mar servidos em caixotes de madeira, sobre gelo picado. As patas de siriking chegam a medir meio metro! Ah, o outro forte da casa: garçonetes de parar o trânsito. Tamanho sucesso faz com que o lugar fique intransitável toda noite, depois das 22 horas. Chega a parecer uma miniboate. No Garde Manger coexistem cozinha impecável e muita badalação, coisa que é raridade absoluta. Resultado? Hughes acabou sendo chamado para virar garoto-propaganda da maionese Hellmann's e apresentar um programa de culinária na TV - virou celebridade.
Seu mentor, McMillan, abriu em 2008 um segundo restaurante ao lado do Joe Beef, chamado Le Liverpool - parecidíssimo com a matriz. Chifres de veado nas paredes, panos de prato em vez de guardanapos, copos grosseiros. Como sempre, porções enormes e carnívoras, como a costela de boi para dois. Ele tem ainda um terceiro negócio, a superdescolada McKiernan Luncheonette, que está mais para bar de vinhos que para lanchonete. O Garde Manger também deu filhote: os sócios do chef Hughes saíram para abrir um concorrente, a poucas quadras de distância, que chamaram de L'Orignal ("O Alce"). Tiro e queda: desde o primeiro dia de funcionamento, ambos vivem cheios de gente bonita. E seguem a mesmíssima fórmula dos restaurantes originais: descontração, badalação, um quê de mistério graças à falta de placa ou propaganda e pratos do dia, sempre rústicos e fartos, bolados conforme o que há de melhor no mercado.
Não há dúvida de que Hughes e McMillan dominam a cena foodie de Montreal. Mas o pai de todos os chefs da gastronomia ultradescontraída, também conhecida como bistronomia, ainda é Martin Picard. Um gigante com barba por fazer, jeito de ogro e fala solta, o chef ficou famoso depois que estrelou o documentário Durs à Cuire (algo como "Ossos Duros de Roer"). Seu Au Pied de Cochon ("Ao Pé de Porco") é cheio de bossa. Serve comida rústica e carnívora ao extremo - de orelhas de porco fritas a linguiça de veado. O celebrity chef americano Anthony Bourdain diz: "É uma ode ao excesso. Não hesito pegar um voo em Nova York só para comer lá". A primeira edição do livro do restaurante, lançada em 2006, se esgotou em três semanas e virou cult. Nele, Picard aparece ensanguentado, destrinchando uma carcaça de porco, e dá dicas aos caçadores ("Deixe o veado descansar com couro por sete dias antes de tirar o filé").
No Au Pied de Cochon, sempre abarrotado de gente e ruidoso, deve-se provar a poutine, que está para os nativos assim como o pastel para os paulistas (até os McDonald's de Québec servem poutine). Trata-se de fritas douradas, amontoadas num prato de sopa, recobertas de molho grosso de carne e queijo branco derretido. A versão de Picard, ainda mais heavy metal, vem coroada com uma fatia de foie gras fumegante. O restaurante serve ainda outros pratos típicos do Québec antigo que alimentaram camponeses por gerações e hoje voltam à moda com status de comida da moda. Exemplos? O pé de porco que dá nome à casa; o pato "enlatado", cozido numa lata e servido com repolho; o creton (patê de porco); a tourtière (torta de carne); e a tarte au sucre (torta de xarope de maple). É uma cozinha rústica e encorpada e cai bem com cervejota gelada e mesa cheia de amigos, bem à moda local.
Mas nem só de pato e foie gras vivem os nativos. Fanáticos por um sujinho, fazem fila todo fim de semana em clássicos como o Schwartz's, boteco famoso pelo sanduíche de carne defumada em pão de centeio. O português João Gonçalves, na casa há mais de 30 anos, fatia mais de 20 peças de carne a cada refeição. Um almoço típico - sanduíche, picles, salada de repolho e refrigerante - servido no balcão de fórmica ou em mesinhas apertadas sai em cinco minutos e custa baratíssimo. Outro restauranteco nota 10 é o Chez Doval, onde se acha o melhor frango na grelha da cidade. Ambiente furreco, serviço corrido, mas charmoso justamente pela simplicidade.
Carne defumada, pato com repolho, pé de porco...Não dá para chamar a cozinha típica de Montreal de leve. Por isso, faça como os locais e substitua uma ou outra refeição em restaurante por um piquenique no parque. A cidade tem vários espaços verdes, todos lindos e acolhedores. O mais central e fotogênico é o que fica, literalmente, no Monte Real, ou Mont-Royal: a montanha, com uma cruz no cocuruto, que dá nome à cidade. Ali estão as mansões mais lindas, de pedra com jardinzinhos impecáveis, no bairro chamado Westmount. E lá no alto o parque com mil e uma trilhas para caminhada, uma lagoa frequentada por castores e um mirante.
O passeio é delicioso. Comece com uma parada num dos principais mercadões, o Jean-Talon, maior porém mais distante, ou no Atwater Market, menor e mais caro. Ambos têm filiais da famosa padaria Première Moisson - que vende baguetes fresquinhas e croissants que se desmancham na boca - e excelentes lojas de queijos. Os queijos feitos em Québec, aliás, estão entre os melhores do mundo, afinados em adega segundo a tradição francesa até atingir o perfeito grau de maturação. Bestsellers incluem o Pied-de-Vent das Ilhas Madalenas, o queijo azul feito pelos monges da Abadia St. Benoît du Lac e o ultracremoso Riopelle, um triplecrème à moda francesa. Complete o kit com uvas, frutas secas e um bom vinho. Na província, só se compram vinhos nas lojas da estatal Societé des Alcools du Québec (SAQ - pronuncia-se "saque"). Os preços são ótimos: aproveite para experimentar um cabernet sauvignon ou um sauvignon bland do Vale Niágara, na província de Ontário, a melhor região vinícola do Canadá. Na dúvida, procure por produtores conceituados, como Peninsula Ridge, Thirty Bench ou Jackson Triggs.
Por fim, nenhuma visita a Montreal estará completa sem que se prove outra especialidade local: o bagel. Sim, os americanos também se gabam desse pãozinho de massa branca em forma de rosca, mas o autêntico bagel, juram os entendidos, é o de Montreal. Os melhores são os das concorrentes St. Viateur Bagel Shop e Fairmount Bagel Bakery, padarias hipertradicionais fundadas por imigrantes judeus. Ambas são muito fora de mão para o turista (ficam bem ao norte do centro turístico). Um consolo: os famosos bagels, enrolados com a mão, são vendidos não só nas matrizes mas também nos melhores cafés e mercearias da cidade. Faça como quem entende e peça o seu com um belo naco da excelente manteiga local ou bem escoltado por fatias de salmão defumado, alcaparra e cream cheese. É… Definitivamente Montreal não ajuda as mocinhas de regime!
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