No avião cubano já me senti em pleno socialismo: tive de dividir a minha poltrona com oito companheiros. A única coisa que tinha para comer a bordo... Bem, deixa para lá. Felizmente eu havia forrado o estômago com um cachorro-quente no Panamá para me despedir da sociedade burguesa decadente e consumista. Os primeiros momentos em Havana me deram uma sensação de estar chegando ao Rio. As ruas mal iluminadas, as construções malcuidadas, o asfalto esburacado, só faltou um assalto. Depois de 40 minutos estacionávamos em Havana Velha, o centro histórico da capital cubana, onde nos hospedamos no Santa Isabel, um hotel, como tudo na ilha, estatal. Mas interessante. Pequeno, com três andares, numa construção do século 19 totalmente remodelada. Naturalmente, o elevador não funciona. A localização é esplêndida, de frente para a Praça de Armas, e os quartos razoavelmente confortáveis têm uma bela varanda dando para a praça.
Saímos cedo no primeiro dia. Por todos os cantos, imensos murais comemorando os 50 anos da Revolução. Sempre acompanhados da guia, pedimos para dar uma parada no Mercado Municipal, onde são praticados preços livres, ou seja, fora das cadernetas de racionamento, livrinhos que acompanham a vida do cubano. Explico: cada cidadão tem direito a comprar uma certa quantidade de alimentos, produtos de limpeza e higiene pessoal que tem de durar o mês. Tudo isso em pesos cubanos. Se faltar alguma coisa, resta o mercado livre. Até outro dia, cada família cubana tinha direito a uma banana, um toco de sabão e um som três-em-um da ZZR. A banana servia para comer, o sabão, para tomar banho, e o som, para nada, pois já vem de fábrica com defeito. Mas, voltando ao Ceasa de Havana, vi centenas de pequenos produtores levarem seus produtos de aspecto triste para tentar descolar um troco. Vegetais murchos, raízes mirradas e carne só de porco - aliás, caríssima.
Em seguida, visitamos uma loja de charutos. Não sou um apreciador de "puros", mas alguns amigos encomendaram umas caixas, e charutos só devem ser comprados nos estabelecimentos oficiais. O problema é que o assédio no mercado negro chega a ser irritante. O rum também é da melhor qualidade, alguns bem envelhecidos e de produção limitada e que custam uma nota preta. Geralmente os turistas procuram a famosa Bodeguita del Medio para experimentar o mojito, bebida feita de rum, água gaseificada e limão. Experimentei o drinque exaustivamente e asseguro que o melhor de Havana é o do bar do Hotel Los Frailes.
Em Havana, em qualquer canto o turista pode escutar música de qualidade feita por trabalhadores atrás de uns CUCs (a moeda que os turistas utilizam em Cuba, mais forte que o dólar). E fomos ver o Buena Vista Social Club, com alguns remanescentes do grupo famoso pelo filme. Mas achei o show na boate Tropicana muito brega e cafona.
Se em Havana se bebe bem e se ouve ótima música, não dá para dizer o mesmo da comida. Come-se muita lagosta lá, mas como ela é maltratada! Chega à mesa sem graça, borrachuda. Devido ao cruel bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos desde os anos 1960, Cuba é um país pobre. Quando alguém oferece um untuoso frango assado para um cubano faminto, ele, imediatamente, oferece em troca uma parte importante e remota de sua anatomia. Essa estranha forma de escambo é ilegal em Cuba, uma vez que no socialismo os meios de reprodução são propriedades do Estado.
Logo que chegamos fomos recebidos com um lauto banquete que constava de uma única empada. Como éramos visita, ficamos com a melhor parte: o caroço da azeitona. Cada refeição era um tormento, e a nossa guia se esforçava por nos agradar. Também provamos o sorvete da Coppelia, estatizada com a Revolução. Mais uma decepção, sem falar no constrangimento de passar na frente de centenas de cubanos que ficam horas na fila atrás de um copinho de sorvete sem graça.
Os cubanos relutam em falar de política; afinal, nos últimos 50 anos, Fidel Castro tem sido o único Fidel Castro de Cuba. Ele implantou o castrismo "ditatorial" autoritário, a famosa Dentadura do Proletariado. Outro herói dos cubanos é o argentino Ernesto Che Guevara, o Jimi Hendrix da esquerda, o Frei Damião dos comunistas. Sua carreira começou em Sierra Maestra, onde vivia escondido no meio do mato com Fidel e outros rebeldes barbudos que tinham um sonho romântico e ousado: introduzir na sociedade cubana o comunismo e o charuto. Depois de chegar ao poder, Fidel proibiu o homossexualismo de esquerda, e Che, sempre à frente de seu tempo, chegou à conclusão de que aquela olhota, digo, ilhota era pequena demais para seus sonhos utópicos. Irritado, Che brigou com Fidel, que, tempos depois, resolveu mandar o argentino para a Bolívia, que é muito pior. Outro ídolo dos cubanos é o Maradona. O ex-jogador fez um tratamento para se desintoxicar em Cuba. Ficou trancado meses numa fábrica de charutos de duplo sentido e, depois de sofrer as dores da abstinência química, acabou trocando um vício pelo outro. Não me perguntem qual.
Imperdível mesmo é uma visita à casa de Ernest Hemingway, que viveu os anos 1930 em Cuba. No bar El Floridita existe uma estátua em tamanho real do escritor americano, que ali tomava intermináveis daiquiris. Por falar nisso, vi pouquíssimas livrarias, com quase nenhuma literatura cubana - mundial, nem pensar. Os livros contam em detalhes a vida de Fidel Castro, a Revolução... Muito chato. A livraria Mondadori, na Praça de Armas (nada a ver com a sua homônima italiana), é boa para comprar CDs de música local.
Se faltam livros, sobram as famosas jineteras (e jineteros), que oferecem com ousadia seus serviços nas ruas. Graças à Revolução, as prostitutas cubanas são as mais educadas do mundo: todas têm curso superior e dominam sua arte em várias línguas. E, para quem gosta, saem baratinho - o preço de um desodorante. Com um tênis Nike novinho você pode transar com a ilha inteira!
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