Pode parecer o contrário, mas gastar por gastar não é o princípio elementar. O que conta para esse viajante é viver uma experiência exclusiva e, sim, ser tratado com deferência. E, para ter essa experiência, que pode ser, digamos, navegar em um iate privativo com chef a bordo no Tirreno, almoçar em cima da Muralha da China ou fazer ioga no Rajastão, a peça fundamental a ser mobilizada tem nome: agente de viagens. Yara Baumgart tem logo dois.
Embora possa planejar e reservar a viagem do começo ao fim pela internet - ou por meio de seus aspones -, o turista AAA passa prazerosamente esse trabalho ao agente, que é 100% focado nisso. Não é qualquer agente, palavra que, aliás, esses profissionais abominam. Preferem "consultores de viagens". Uma dessas é Eliana Faro, formada em história pela Universidade de São Paulo (USP) e com 30 anos de experiência entre os vips paulistanos. No escritório de Eliana não há aqueles folhetos com roteiros de destinos. Na verdade nem roteiros prontos há. Ela os customiza sob demanda, um a um. Uma viagem ideal, para Eliana, não pode passar por muitas cidades e não inclui destinos populares, como Cancun e Aruba. (Se um cliente insiste no Caribe, ela sugere Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, e St. Barth.) Ela, pessoalmente, também não gosta de Dubai, emirado para o qual destina palavras ácidas: "Tem um ínfi mo de cultura e história. É só consumo".
A mais famosa "consultora" de viagens em São Paulo é Teresa Perez. Foi uma das primeiras brasileiras a entrar na associação americana Virtuoso, que reúne 300 agentes de viagens de luxo no mundo. Os "virtuosos" conseguem bons preços em quartos de categoria superior e mimos como jantares de cortesia para seus clientes. Teresa lançou em maio um livro de viagens - as dela. O lançamento de seu Traveller Book (Editora DBA) foi prestigiado por Olavo Setubal Júnior (do Banco Itaú), Adriana Trussardi (da loja de enxovais Trussardi), Carlos Jereissati Filho (do Shopping Iguatemi). "A Teresa sempre achou imprescindível ter uma relação próxima com os clientes", diz Tomas Perez, que fundou a agência com a mãe, há 18 anos. Teresa conquistou sua posição com visão. No início, guiava grupos para a Disney. No mês que vem, a filha Carolina vai ao Japão com um grupo de 16 pessoas conduzidas por Jun Sakamoto (dono do melhor restaurante japonês do Brasil, segundo o GUIA BRASIL 2009). O roteiro, com jantares em mesas estreladas pelo Guia Michelin de Tóquio e uma estada básica de três noites em Paris, vai custar 26 600 dólares por pessoa. Sem aéreo.
Propiciar situações exclusivas como essa é o cálice sagrado do consultor. "Outro dia, o melhor estilista de quimonos de Tóquio recebeu um cliente meu para um chá. Aquele encontro singelo mudou sua viagem", diz Anita Besson, que trabalhou 12 anos na operadora Queensberry e agora está na Matueté, que recepciona estrangeiros que vêm ao Brasil. No ano passado, Yara Baumgart - e prometemos que a partir desta linha não se fala mais dela - foi com "Anitinha" mergulhar em Noronha. A ex-jornalista Lea Dorf, que deixou as redações para se dedicar a qualifi car as viagens dos vips da Grande São Paulo Turismo, já conseguiu abrir o lindo Museu Hermitage, de São Petersburgo, na Rússia, para um só cliente. "O que faço é rechear o roteiro dos viajantes com programas surpreendentes", diz. Ter conseguido rapidamente uma reserva no The French Laundry, restaurante do chef Thomas Keller, no Napa Valley, na Califórnia, foi outro de seus feitos. Na linha de empresas como a Butterfield & Robinson, que promove viagens caras com pedaladas leves e piquenique por lugares maravilhosos como a Toscana, alguns agentes decidiram se especializar. Tati Simões, que trabalhou por nove anos na associação The Leading Hotels of the World, a maior rede de hotéis de luxo no mundo, acaba de abrir em São Paulo uma agência de viagens gastronômicas, a Goute. Em Porto Alegre, Clarisse Linhares desenvolve roteiros culturais e dá aulas preparatórias de história da arte para quem vai a destinos como Egito ou Turquia. No ano passado, montou uma viagem à Rússia para Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizações Globo. "Cheguei a fazer uma apresentação a ele em São Paulo, mas a viagem foi cancelada por problemas de saúde."
A crise, que aparentemente já passou por seus piores dias, mudou, mas não muito, as viagens de luxo. Sem se identificar, uma socialite paulistana ligou para o escritório brasileiro da Leading Hotels. Acostumada a hospedar-se no Plaza Athénée, ela queria "outras possibilidades". Pagou 700 euros por um apartamento "basiquinho" no hotel Le Bristol, na Rue Faubourg Saint-Honoré. Ganhou upgrade para a suíte júnior e o café da manhã, que não é incluído na diária. "O turista sabe que a procura mundial está menor e por isso busca benefícios", diz João Annibale, CEO da Leading Hotels no Brasil. A Leading registrou queda de 17% no volume de vendas das viagens a lazer no primeiro semestre de 2009. Eduardo Nascimento, diretor da Braztoa, associação brasileira de operadores de turismo, vê surgir um "novo luxo", com preços mais realistas. "Além de confortáveis, os lugares agregam experiências ao viajante." Para ele, resorts como o Txai, na Bahia, e hotéis como os da rede Explora, no Chile, seguem essa linha.
Uma pesquisa do administrador de empresas Carlos Ferreirinha, uma das pessoas que mais conhece o luxo no país, mostrou que 5% dos 5,9 bilhões de dólares de faturamento desse mercado vêm do turismo. Na outra ponta, o governo brasileiro vê o viajante estrangeiro com avidez. Recentemente, a Embratur assinou parceria com uma associação de empresários brasileiros, a Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), para promover o Brasil como destino de luxo. Seu presidente, o francês Franck Vallois, vê interessantes diferenças entre o AAA brasileiro e o AAA europeu. "O viajante rico daqui não pesquisa e não olha tanto para o bolso, como fazem os europeus", diz. "O brasileiro joga toda a responsabilidade da viagem no agente. O sujeito não pode errar."
O empresário Rogério Fasano, um dos membros da BLTA, não está muito aí para os agentes. O homem viaja todo ano à Europa e aos Estados Unidos. (Em Manhattan, hospeda-se no descolado The Mercer, no Soho, o mesmo hotel em que o ator Russel Crowe atirou um telefone no funcionário que não conseguiu completar uma ligação.) Rogério é, entre seus pares, a exceção que confirma a regra: cumpre o papel de seu próprio consultor de viagens. "Defino os lugares e peço para o pessoal do meu hotel cuidar dos contatos e das reservas." Ah, bom.
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