Fenômeno de vendas, o Energia na Véia tem origem em um programa de rádio homônimo, criado há nove anos pelo DJ Silvio Ribeiro. As primeiras festas impulsionadas pelo programa aconteceram em 2001, em galpões da capital paulista. Em 2008, a balada foi transferida para o Island Escape. A fim de atender à demanda, em 2009 houve duas saídas. Neste verão, vai acontecer no Vision of the Seas, da Royal Caribbean. O segredo do sucesso está na programação musical: uma seleta que reúne os melhores flashbacks dos anos 1970 e 80, combinando disco, rock, tecnopop e trash no mesmo caldeirão. "Por ser festa de flashback, o público é bem misturado. Vêm a sogra, o pai, a filha, tudo junto", diz Ribeiro. Essa mistura, segundo ele, cria um clima família, bem diferente do que é encontrado nos cruzeiros universitários ou naqueles dedicados à música eletrônica. "Quem vem aqui não tem de se preocupar com drogas ou brigas. É só diversão", diz ele. Será mesmo?
Logo no embarque, a primeira missão: verificar se era possível entrar com drogas. No que depender da revista, estava liberado: em questão de segundos, o funcionário abriu a minha bolsa, passou a mão lá dentro, fechou. Bastaram poucos minutos dentro do navio, porém, para perceber que a droga da vez era o álcool. Grupos barulhentos reunidos em torno de um balde de cerveja são o trivial. A bebida estava em todo lugar: nas mesas do Beachcomber (o restaurante principal do Island Escape), nos bares, numa barraquinha improvisada na piscina. Difícil resistir, mesmo com o preço alto: uma latinha custa 5 reais. Grosso modo, o público era de classe média, idade entre 25 e 35 anos, metade homens, metade mulheres. Muitos casados, embora a maioria parecesse solteira. A surpresa: uma parcela considerável de idosos e crianças.
Durante os três dias, o centro das atenções, em torno do qual orbita toda a agitação, era a piscina. Às 20 horas, já estava todo mundo lá, dançando, bebendo e azarando. Grupos de rapazes sem camisa sobem na borda da piscina e paqueram todas as meninas que aparecem. No bar, uma mesa só de homens avalia as garotas que passam: gritam, batem palmas e riem muito. Não há espaço para sutilezas.
Três festas estavam programadas: a do Farol, a Festa a Fantasia e a White Night. A primeira dava o tom da balada - dizia o flyer que quem estivesse disponível devia usar verde; comprometidos, vermelho; e indecisos ficavam no amarelo. Desnecessário dizer, o amarelo era uma cor inexistente na pista de dança. Verdes aos montes, e uma quantidade razoável de vermelhos, coloriam a festa. O clima de azaração explícita atinge o auge lá pelas 3 da madrugada. Bastam alguns minutos de flerte na pista para o rapaz arriscar um beijo, seguido pela pergunta inevitável: "Vamos pra sua cabine?" Rápido assim. "Quem vem para este cruzeiro já chega com esse espírito, então a paquera é mais fácil", diz Juliano Sanches, de 28 anos, comerciante. Mas ele ainda prefere outro temático, o Cruzeiro de Singles. "Aqui tem muita gente velha", diz.
Um dos motivos para a presença de gente acima de 30 é, claro, a música. Afinal, quem não gosta de dançar ao som dos hits de sua adolescência? O clima é de celebração, e todo mundo canta junto hits trash (de Roupa Nova a Xuxa, passando por Sidney Magal) e roquinhos dos anos 1980 (o RPM não morreu!). Ou então joga as mãos para o alto em sons house ("Everybody dance now") e roqueiros (toca The Smiths e The Cure também). O público vai à loucura, e a balada ferve até as 8 da manhã.
Na segunda noite, a Festa a Fantasia foi o pretexto perfeito para mais um delírio coletivo. Havia desde padres voadores e pilotos da esquadrilha da fumaça até misses e diabinhas. Dançarinas fogosas, contratadas pelos organizadores para balançar no palco, deixavam tudo um pouco mais quente. Tão quente que algumas pessoas se enfiavam embaixo da ducha para se refrescar.
Um detalhe importante: para quem se cansa em pistas abafadas e banheiros lotados, uma balada no navio é um bálsamo. É delicioso dançar em um chão que se mexe levemente, cercado de água por todos os lados: parece que o balanço te acompanha por todo o lugar. Não precisa se preocupar com o ar-condicionado: a brisa marítima garante o ar fresco. Ficou com fome? Basta ir ao restaurante do navio, aberto 24 horas, e beliscar uma pizza ou então tomar um café reforçado. O sapato apertou? Dá para ir até a cabine trocar, fazer uma massagem no pé e recuperar as forças para o segundo tempo. Um único senão: com o preço das bebidas lá em cima, o prejuízo no fim da noite pode ser grande. Em compensação, tem água gelada e suco de graça - é a salvação.
Tudo o que interessa por ali é a balada. Por isso, não se iluda: ninguém embarca em um cruzeiro de balada para jogar no cassino ou aproveitar as paradas em terra. Café da manhã não existe, a não ser na madrugada ou então para quem trouxe crianças - para o resto dos mortais, levantar antes do meio-dia está fora de cogitação. Almoço é hora de repor as energias e começar a ingestão de álcool, que continua na piscina, à tarde. Compras são permitidas, seja no free shop do navio ou nas lojinhas de Búzios, onde o navio fez sua única parada. No último dia, uma boa surpresa para os baladeiros de ressaca: já no caminho de volta, fomos brindados com uma vista magnífica do litoral carioca.
Foi o prelúdio perfeito para a última balada, a White Night. A energia estava chegando ao fim, e tudo tinha cara de despedida: o tempo chuvoso, o clima de "amanhã é segunda feira". "Você deve desocupar a cabine às 7h30", dizia o aviso colocado por baixo da porta. Até os DJs pegaram leve: a música estava menos frenética. Era hora de desaquecer, desacelerar, voltar pra terra firme. O excesso prometido, afinal, não aconteceu. "Perder o controle"? Só até certo ponto. Loiras de chapéu e moços de bermuda não veem problema em beber até cair e paquerar à vontade, com direito a sexo na cabine. Mas drogas e outros excessos ficaram de fora. No fim, toda aquela ousadia era fake - embora a vibração fosse sempre verdadeira.
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