A Basilicata, região ao sul da Itália onde fica Matera, ocupava uma posição estratégica valiosa por volta do ano 1000. Assentada sobre o "peito do pé" da Bota, era ponto de passagem entre Roma e o Porto de Brindisi, respectivamente nas costas oeste e leste da Itália. Desse porto partiam embarcações que atravessavam o Mar Adriático em direção à Albânia, porta de entrada para Constantinopla, a capital do então Império Romano do Oriente. Os donos do pedaço naquele tempo eram os gregos, os muçulmanos e os lombardos. Como invasores, impunham sua cultura à população local. O domínio da Igreja Católica na região começa com a chegada dos primeiros normandos, por volta de 1050. Temidos guerreiros mercenários de descendência viking, esses cavaleiros do norte da França eram movidos pelo desejo de conquistas e pela fé religiosa. Não demorou muito para que as cidades fossem liberadas do domínio "estrangeiro". A Igreja celebrou essa grande vitória e adotou os cavaleiros como protetores. Sob esse manto de segurança, bispos de toda a Europa começaram a chegar à Basilicata, originando um concílio sob o papa Urbano II, que concebeu a ideia da primeira cruzada. Mais tarde, em 1095, essa decisão seria oficializada no concílio de Clermont-Ferrand. Por esse motivo, a libertação da Basilicata ficou conhecida como "Pré-Cruzada".
Com a região então sob o domínio da Igreja Católica, começou o movimento de "latinização" dessas terras, até então influenciadas por culturas orientais. Nas palavras do monge Rodolfo il Glabro, que viveu na época, a Basilicata "pareceu se revestir de um branco manto de igrejas", servindo de refúgio e local de descanso para religiosos e cavaleiros que partiam para as Cruzadas. É nesse momento que começa a se formar a Matera moderna, a Città dei Sassi (em italiano, Cidade das Rochas), como é conhecida até hoje.
O povoado foi construído ao longo dos anos, aproveitando a topografia muito particular: junto a uma das margens do Rio Gravina, que cortava o grande vale. Por um lado, isso garantiu a segurança da cidade por séculos, depois da invasão dos normandos, tornando-a praticamente invisível aos olhos inimigos. De outro, causou um grande problema: a dificuldade de abastecimento de água nas casas. Os Sassi, hoje o centro histórico, se assentam sobre um enorme banco de calcário, 150 metros acima do nível do rio. Por isso, seus habitantes concentraram-se na escavação de cisternas e na canalização. Esse esforço resultou em um sistema de abastecimento de eficiência impressionante, apesar das estruturas rudimentares. Matera, sob esse ponto de vista, é um dos mais antigos e bem preservados exemplos de bioarquitetura no mundo.
As casas-grutas são uma das peculiaridades locais. Retratam com fidelidade como viviam seus habitantes e os costumes rurais da região há mais de mil anos. Hoje poucos moram ali. A maioria dos proprietários montou pequenos negócios e vive do turismo. Alguns hotéis situados nos Sassi também oferecem quartos muito confortáveis dentro dessas grutas - quentes no inverno e frescos no verão. Uma boa pedida, já que as temperaturas podem variar entre 3 e 30 graus nas duas estações. Dois bons exemplos dessas casas merecem visitas: Casalnuovo, perto do complexo rupestre de Sant'Antonio, e Vico Solitario, em Sasso Caveoso.
As igrejas rupestres estão na lista das atrações mais visitadas. Escavadas nas rochas, apresentam interessantes detalhes arquitetônicos e afrescos com elementos de arte oriental. No complexo rupestre do Convincinio di Sant'Antonio, o turista encontra um pátio retangular com quatro igrejas. A de Santa Bárbara é imperdível, com afrescos que representam a verdadeira arte rupestre materana. Pode-se optar por visitar uma ou mais igrejas e escolher entre diferentes circuitos, guiados ou não.
FESTA IMODESTA
Em geral, uma cidade tranquila e sem muita badalação, Matera transforma-se no dia 2 de julho. É o dia em que se celebra a festa da padroeira, La Madonna della Bruna. Centenas de barracas que vendem de tudo começam a se espalhar pelas ruas uma semana antes da data. O dia do evento começa muito cedo, às 5 da madrugada, com uma pequena explosão de fogos e a partida de uma procissão, que dura aproximadamente quatro horas. Pessoas levam alimentos e animais a acompanhar a imagem da santa, que percorre todas as ruas principais. Logo após a procissão, começa o desfile dos cavaleiros, que prossegue até a noite. São 90 deles, vestidos com uniformes feitos por artesãos especialmente para o acontecimento. Os cavalos são penteados e preparados pelas mães e esposas dos cavaleiros, como manda a tradição. O desfile, ao final, ganha um tom de competição, ao ser eleito o conjunto mais bonito.
Com todos prontos, o comandante inicia lentamente o trote do pelotão. Durante toda a tarde, o vai-e-vem de cavalos e cavaleiros leva os espectadores à euforia, especialmente quando o general dá o sinal verde a seus "soldados", com a trombeta, e a banda começa a tocar. Por volta das 20h30, o sol se esconde do outro lado do vale e a praça principal da cidade é tomada por uma multidão de pessoas que esperam, ansiosas, a passagem do carro alegórico, trazendo "La Bruna", a homenageada da noite. Como alegam os nativos de Matera, "Il Carro" é um dos elementos mais importantes da tradição. Sua verdadeira origem se perde no tempo. Algumas versões circulam entre os moradores. Uma delas conta que uma senhora, um dia, parou a carroça de um fazendeiro e pediu uma carona até a cidade. Assim que entraram em Matera, a mulher disse ao fazendeiro: "Desse jeito, em um carro muito bem adornado, quero entrar em minha cidade todos os anos". E desapareceu perante os olhos incrédulos do fazendeiro. Daí em diante, todos os anos, o carro de papel machê, que leva o ano inteiro para ser construído, entra na cidade com a imagem da santa e se dirige até o centro.
Às 22 horas, chega finalmente o momento mais esperado da festa. O carro alegórico começa a se aproximar do centro. E é quando acontece algo insólito: a destruição do carro pelo povo enfurecido. Segundo os locais, esse momento lembraria o ataque que repeliu a tentativa de invasão dos turcos na Antiguidade. "Conseguir um pedaço do carro é o auge da festa", diz Pasquale Vincenti, um dos primeiros na fila a encarar o cordão policial, à espera de seu alvo, que começa a se aproximar. Assim como a grande maioria, Vincenti tem como principal objetivo conseguir a imagem da santa. "No fim das contas, todos os anos é a mesma 'panelinha' que consegue levar a imagem pra casa", lamenta-se Antonella Mazzei, proprietária de um hotel. "Se eu fosse você, sairia da frente desses caras", escuto de um policial que lutava pra segurar a multidão. O encerramento acontece com uma queima de fogos de 20 minutos, ao som de música clássica.
Por que Matera ainda não foi descoberta pelo turismo de massa? Talvez por ser ofuscada por destinos tradicionais, como Roma, Florença, Veneza etc. Ou talvez por não ser de fácil acesso. O importante é que Matera é conhecida pelos italianos, que entendem como poucos de festa, comida, história, beleza e diversão. Para quem gosta de fazer aquela viagem tranquila e sem muitos turistas, é melhor se apressar. Matera é um tesouro para poucos. Por enquanto.
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