Brasileiros vão para Portugal como quem vai pra casa da vó. Para visitar familiares, conhecer as origens, aproveitar a familiaridade com a língua, a boa mesa, os bons vinhos, ter seu primeiro contato com a Europa. E, fenômeno recente, para aproveitar as excelentes oportunidades de preços. Hoje, com
1 000 dólares, é possível encontrar pacotes com passagem e quatro noites de hotel. "Muitas vezes sai mais em conta até do que comprar só o bilhete aéreo", diz Luiz Chaimsohn, diretor da Transiberica, operadora que tem a maior combinação desses pacotes curtos, os city packages.
Quatro noites são muito pouco tempo, vamos combinar. Mas dá para fazer um monte de programas legais e terminá-los com a sensação de ter conhecido ao menos o básico. Em Lisboa, os clássicos são a saída certa. "Muitos esticam um pouco a estada, pagando uma média de 60 euros por noite extra", diz Danilo Silva, que atende os clientes que querem ir para a Europa com a Marsans, a maior operadora da Espanha, especializada em Península Ibérica. Foi o que fizemos, ficando mais um dia.
Antes de conhecer o Chiado, o Bairro Alto ou a Baixa, o início de um roteiro clássico em Lisboa é Belém, bairro a meia hora do centro. "Engraçado. Os brasileiros quase sempre começam no lugar de onde partiram as caravelas para o Novo Mundo", diz Paulo Machado, coordenador de turismo do consulado de Portugal em São Paulo. Se aqueles navegantes, antes de se lançar ao mar, iam pedir proteção na Capela de Santa Maria, onde depois foi construído o impressionante Mosteiro dos Jerónimos, no século 16, é ali também que os turistas brasileiros começam sua epopeia particular. "É incrível ver como a nossa história está diretamente ligada com o que se passava aqui", diz a paulistana Karen Fogaça, enquanto seguia com atenção o painel cronológico em uma das salas do mosteiro.
O símbolo principal desse período é a Torre de Belém, construída em 1520. Brasileiros como Karen se espremem nas escadas estreitas e disputam espaço com turistas de toda parte para chegar ao ponto mais alto da torre e obter uma das vistas mais bonitas do Tejo. Dali também se veem o Padrão dos Descobrimentos, o monumento que comemora as conquistas marítimas portuguesas, e, ao fundo, a moderna Ponte Vasco da Gama, a maior da Europa, com mais de 17 quilômetros de extensão. Mesmo quem não se entende com os livros de história sente ali uma pequena epifania. Mas quem quiser se aprofundar ou só ver de perto uma caravela precisa ir ao Museu da Marinha, ao lado do Mosteiro dos Jerónimos. Ele guarda embarcações em tamanho real e em miniatura, além de instrumentos de navegação usados na época.
Uma vez cumprido o ritual de descobrimento de Lisboa, ainda há muito a ser visto. Quem chegou lá de Cityrama, o ônibus panorâmico que circula pelos principais pontos turísticos, pode voltar ao ônibus sem precisar pagar de novo. Basta ter comprado o cartão de descontos Cityline, que custa 15 euros e permite pegar quantas vezes quiser os ônibus da empresa - com a vantagem de ter acompanhamento de um guia e audioguias em vários idiomas. Partindo a cada 30 minutos da Praça Marquês de Pombal, o ônibus da Cityrama segue pela Avenida Liberdade. Por ali há lojas da Zara, da Calvin Klein, da Armani, que calam fundo no coração dos turistas brasileiros.
A mineira Maria Lúcia Ferreira, que tudo via pela janela, viu mesmo foram os anúncios de liquidação nas vitrines. Queria descer logo no primeiro ponto. O guia tentou demovê-la, em vão. "Se as compras pesarem, voltamos para o hotel, deixamos as sacolas e embarcamos outra vez", diz Maria Lúcia. Sem ela, o tour prossegue pela Praça dos Restauradores. "Esse obelisco é uma homenagem aos nossos heróis, que em 1640 restauraram a independência de Portugal diante da Espanha", diz o guia, que era espanhol. Seguindo pelo Rossio e pela Praça do Comércio, o ônibus vai pela Avenida 24 de Julho, passa pela porta dos museus da Arte Antiga e do Oriente, mas só para no dos Coches. Um italiano fica indignado: "Como podem considerar carruagens mais importantes do que obras seculares?" Na parada seguinte, a de Belém, o Cityrama esvazia. Apesar de passar a cada meia hora, só fica cheio novamente no fim da tarde, quando todos voltam ao centro. Fazendo um caminho diferente, passa pelas Docas de Alcântara, pela Basílica da Estrela, para voltar à Marquês de Pombal, encerrando o tour às 6 da tarde (um dos contratempos: não circula depois desse horário).
A Marquês de Pombal é o epicentro dos hotéis vendidos nos pacotes curtos. Nos arredores, seguindo pela Avenida Liberdade até o bairro da Baixa, a região tem uma grande concentração de três e quatro-estrelas reformados recentemente, sem grandes luxos mas com um mínimo conforto garantido, caso do Comfort Inn e do Fênix. "Nós mandamos muitos brasileiros para lá", diz Delfina Galvão, agente de viagens da Lusanova, a principal operadora portuguesa no Brasil. Se em 1755 todo aquele pedaço desapareceu por causa do terremoto que custa a sair da memória dos portugueses, hoje é ponto nevrálgico do turismo. Por conselho do agente da Marsans, esta repórter se hospedou no Residencial Horizonte, em frente à estação Parque do metrô. No mesmo prédio funcionavam consultórios médicos e salas comerciais. Estranho. Em compensação, o gerente, Eduardo Mateus, era um concierge por vocação: "Não que seja perigoso, mas não convém ir às Docas à noite a pé, pois você é uma senhorita", recomendava. Instalada no Comfort Inn, a mineira Rita de Cássia parecia contente por estar perto da Avenida Liberdade. "Se eu precisar de uma blusa ou um sapato, é só dar um pulinho lá", diz ela, que pretendia voltar com uma mala a mais só de compras.
Como nem só de compras vive o turista, voltemos aos passeios. Pegar o bonde 28 na Praça Martin Moniz não requer muita habilidade e é o melhor jeito de curtir a Baixa, o Chiado e Alfama. Além de o eléctrico ser uma atração em si, ele passa por mais de dez belas igrejas, conventos, pelo Parlamento, por vários jardins e mirantes. "É impossível não se lembrar do bondinho de Santa Teresa, mas este aqui é mais emocionante e passa por ruazinhas muito apertadas", diz a carioca Maria Luiza Reis, que estava pela quinta vez na cidade e sabia de cor os nomes das travessas. Para subir e descer do eléctrico em alguns dos 38 pontos, o melhor é comprar um daqueles cartões que dão direito a passe livre em transportes públicos, como o Lisboa Card, que custa 16 euros por um dia.
No ponto mais alto do circuito, os jardins das ruínas do Castelo são o lugar perfeito para admirar Lisboa de camarote. Casais namoram, senhores jogam damas, crianças se divertem com os telescópios, locais e turistas descansam nos bancos de pedra. Tudo isso com vista para o mar, o Tejo e o casario com suas roupas secando para fora das janelas. "Vendo as casas e os barcos tão pequenos lá embaixo, parece que nós dominamos a cidade", diz a paraense Joselma Ferreira enquanto tenta localizar do alto o hotel em que estava hospedada.
A 15 minutos dali, a peregrinação pela história de Lisboa segue até a Catedral da Sé. Atrás da igreja, pagando 2,50 euros se tem acesso ao melhor do programa: os claustros, onde foram feitas escavações arqueológicas que permitem ver alguns vestígios da ocupação muçulmana e da romana. No Museu de Arqueologia do Carmo, ao lado do metrô Baixa-Chiado, também há artesanato do período romano, assim como do pré-histórico e do medieval. No entorno do museu, eis que vemos mais brasileiros em exercício. "Aqui é ótimo para comprar lembrancinhas", diz a paulistana Vanessa Mattos enquanto adquire vários azulejos pequenos a 2 euros cada um, de presente para a família. "Me preocupa o peso da mala, pois já estou levando algumas louças e vinhos também."
Um café obrigatório é o da A Brasileira, no Largo do Chiado (0,70 euro se tomado no balcão). Brasileiros por ali há um monte. Atraídos pelo nome da casa? Ou pela estátua de Fernando Pessoa sentado à mesa na esplanada? "Os brasileiros são os mais carinhosos com a estátua de Pessoa", diz o garçom Joaquim Diogo, impressionado com as manifestações de afeto que o homem de bronze recebe. "Dizem-lhe até que sentirão saudade! Imagine um americano dizendo essa frase. Impossível, ele não sabe o que é saudade..." Com mais de 100 anos, o café era ponto de encontro de artistas e intelectuais, Pessoa inclusive. Diz a lenda que foi ali que surgiu a expressão "bica", hoje comumente usada como sinônimo de café.
Não há dia que não se encerre com um bom programa noturno. Dos agentes de viagens ouvidos pela VT, todos recomendaram ao menos uma noite em uma casa de fado clássica, como a Sr. Vinho, no bairro da Lapa (onde surgiu a cantora Mariza, expoente do gênero), ou nas mais próximas do centro, como o Clube do Fado. Por ali, cantores se revezam durante a noite e até os garçons fazem intervenções. O jantar servido é típico, com caldo verde de entrada e bacalhau como prato principal. O preço: 7,50 euros pelo show mais o que for consumido da carta. Reconhecem-se os conterrâneos quando Luísa Rocha, a cantora da vez, inicia os versos de Saudade do Brasil em Portugal, de Vinicius de Moraes. Parte da plateia vem abaixo, e nós sabemos de onde eles vêm. Já o público mais jovem corre para o Bairro Alto, onde o grande barato é ficar conversando e bebendo nas ruas, em frente aos pequenos bares, e pagar 1 euro por um chope ou 2,50 por uma caipirinha extradoce (consumidos em pé, diga-se de passagem). A rotina só é diferente na Rua Atalaia, com brasileiros lotando o Armazém de Móveis para ouvir MPB ao vivo, com entrada grátis. São imigrantes com saudade. Como no Bairro Alto tudo fecha às 2 da madrugada, quem quer continuar a noite segue para as Docas de Alcântara, galpões à beira do Tejo transformados em barzinhos e danceterias. Ou então para a boate Lux, na Doca Cais de Pedra, onde se apresentam DJs consagrados de música eletrônica, com entrada por apenas 12 euros, consumíveis.
Se todos os pontos da gincana forem cumpridos, fica difícil acordar cedo. Mas, se for o último dia, tudo vale a pena. Como ir até a estação Oriente e o Parque das Nações. Região completamente reestruturada para a Expo 98, ainda hoje é o lado mais moderno da cidade. Abriga o maior aquário da Europa, no Oceanário de Lisboa, onde é possível ver mais de 15 mil animais dos cinco oceanos. No parque também há um teleférico que percorre a beira do Tejo. Mas, na estação, o que atrai multidões é o Centro Comercial Vasco da Gama, com lojas de rede, supermercado e algumas grifes. Não foi diferente com o casal carioca Orlando e Marina Corrêa, que aproveitou um roteiro curto para visitar Portugal pela primeira vez. "Aqui eu me sinto em casa. A língua é a mesma, a comida é muito parecida com a do nosso litoral e os preços são em conta", diz Marina. "Quer mais razões para fazer um bate-e-volta?"
Conheça:
Guia Quatro Rodas
| National Geographic Brasil
| Viagem e Turismo
Expediente
| Mapa do site
| Política de privacidade
| Anuncie
| Faleaqui
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados. All rights reserved.
Site melhor visualizado em 1024x768