Para praticar rafting, é útil ter um pouco de coordenação motora e saber interpretar os comandos do "capitão". Muita gente se confunde ao ouvir expressões como "direita ré", quando quem está no lado direito deve remar para trás - e quem está no lado esquerdo, para a frente. Mesmo assim, ter de remar, concentrar-se nas instruções, descer as corredeiras, esquivar-se dos galhos suspensos e tomar banho de rio é uma delícia. Não deve ser à toa que o rafting é o produto mais vendido pelas agências de ecoturismo de Brotas - desde os anos 1990, a capital informal da aventura do estado. A cidade é também o segundo melhor destino de ecoturismo desta edição do Prêmio VT - só perde para o eterno campeão Bonito (MS). Fazer rafting ali custa em média 75 reais. Vale até para quem não sabe nadar, já que é obrigatório o uso do colete salva-vidas. Mas há muitas outras atividades que podem ser praticadas lá: arvorismo, canyoning, tirolesa, rapel, boia-cross, canoagem, cavalgada, pesca, quadriciclo, ultraleve. A novidade mais recente é uma trilha de bugue.
Atrás das atrações de aventura chegam a Brotas 120 mil turistas por ano. Sete em cada dez visitantes vêm da capital, se deslocando por algumas das melhores estradas do estado, como a Bandeirantes e a Washington Luís (e, por isso, prepare o bolso: o gasto com os pedágios de ida e volta desde São Paulo bate em inacreditáveis 65 reais).
Brotas começou a revelar sua vocação para o ecoturismo de maneira meio torta, em 1993. Na época, o governo municipal havia dado sinal verde para a instalação de um curtume próximo ao Jacaré-Pepira, mas o projeto foi abortado graças à resistência de ambientalistas e da população. Depois disso, a cidade começou a profissionalizar o que era a diversão dos locais e foi se firmando como destino de aventura, mesmo com o agronegócio fechando o cerco: ali se plantam cana, laranja e eucalipto.
No sábado do meu rafting, havia um pequeno congestionamento de botes no rio. Uns 20, de três agências diferentes. Felizmente, os instrutores mantêm uma distância regular entre os botes para que eles não encavalem e cada aventureiro tenha vez nas inúmeras corredeiras ao longo dos cerca de 10 quilômetros de percurso, que dura quase duas horas. As chuvas determinam a força das águas e o grau de dificuldade do esporte, que pode chegar a 5 (muito difícil).
Durante o passeio, o cenário é de mata fechada e água geladinha, limpa mas escura. Sozinha, fui colocada num bote com Victor Hugo Duarte, de 10 anos, de São Paulo, que comemorava seu aniversário ali com os pais, Michel e Lidiane Duarte, e os primos Rômulo e Fernando. Com tantas crianças a bordo, não tivemos tanta "emoção" ao atravessar as corredeiras. Eu, estranha no meio de uma família, não fui ouvida na definição de nosso grito de guerra. A primeira ideia foi "Ronaldo", mas o instrutor Gabriel vetou: era uma palavra grande demais. Então ficou "Timão". Ainda bem que não dou a mínima para futebol. No fim do passeio, o instrutor perguntou a Victor: "Prefere isto aqui ou o PlayStation?" Ele respondeu: "Eu trouxe o PlayStation, mas o rafting é mais legal".
Depois de uma manhã inteira na água, eu e a fotógrafa Andrea, minha companheira de aventura, escolhemos ficar suspensas no ar. Optamos pelo Voo do Falcão, um conjunto de tirolesas - esporte em que se desliza atado a um cabo de aço. O voo tem cinco trechos que totalizam 1 020 metros de extensão e chegam aos 60 metros de altura. Somente quando pus os pés na primeira plataforma me dei conta da altura. Tive medo ao perceber que passaria bem acima das cachoeiras e bem próximo de algumas árvores, a uma velocidade de 35 quilômetros por hora. Demorei a me largar no primeiro voo, mas lá pelo terceiro trecho eu já gritava durante o percurso e abria os braços para os lados. Apesar do risco, percebi que o passeio era seguro graças aos equipamentos e ao preparo dos instrutores. É preciso dizer que todas as agências de Brotas possuem o sistema de gestão de segurança (SGS) para o turismo de aventura. Esse sistema é a principal exigência na obtenção do selo do Programa Aventura Segura - criado em 2006 pelo Ministério do Turismo para tentar regular a atividade e, no limite, reduzir os riscos para o usuário. Até aqui somente a Alaya, de Brotas, e a Kango Jango, de Socorro, têm o selo. Em Brotas, a questão da acessibilidade, porém, deixa a desejar. Vi banheiros adaptados e rampas de acesso em algumas agências, mas pessoas com deficiência interessadas nos esportes de aventura têm de fazê-los nas mesmas condições dadas ao público em geral.
Para o domingo, escolhemos praticar o canyoning que consistia em três descidas nas cachoeiras Cassorova I e II e na dos Quatis. E dessa vez quase me juntei às duas garotas que desistiram na última escalada de 42 metros de altura - o equivalente a um prédio de cerca de 14 andares. O momento mais dramático é o começo, quando temos de ir até a beirada da cachoeira, inclinar o corpo para trás e encarar o paredão. A impressão que eu tinha é que, em vez dos pés em terra firme, deveria me soltar rumo ao precipício - na verdade, rumo ao rapel. Para completar, a cadeirinha aperta bastante os quadris no início, na hora do rapel positivo (em que se vai com os pés apoiados na parede). Mas o manejo das cordas não exige grande habilidade manual. Sorria para a fotógrafa que no fim do passeio vende um CD com suas imagens por 30 reais. Decidi ser uma das primeiras a descer para não sofrer com a espera e não me aproximei da beirada a não ser na minha hora. Durante a escalada, não olhei para baixo e mal consegui curtir o visual. Só gostei quando, na metade final, os instrutores soltaram a corda de supetão e a gente caiu como um míssil na água. Antes, porém, eles avisaram para fechar a boca, já que o grito durante a queda é inevitável.
E, enquanto a gente afundava no rio, os instrutores se divertiam. Pelo menos assim era para João Fábio Jordão dos Santos, de 23 anos, que trabalha na empresa H2Omem nos fins de semana. Nos dias úteis, ele muda completamente de cenário e dirige trator em plantações de cana. "Faço isto aqui no fim de semana pra me divertir." Seu colega Luzimar Serafim Alves, de 27 anos, também instrutor, realiza serviços gerais nas fazendas de cana de açúcar. "Corto, carpo e jogo agrotóxico na cana."
Andrea Ferreira, de 39 anos, de Araçatuba, no fim do canyoning também dava risadas. Estreante em Brotas, era sempre a primeira a descer e não parecia preocupada com a altura. Eu descobriria depois que, como investigadora de polícia, seu dia a dia já tem boas doses de adrenalina. E um amigo que a acompanhava, ao chegar lá embaixo, perguntava quem havia visto o passarinho entre as rochas. Passarinho, amigo? Diante de toda a emoção da descida, a primeira vez naquela corda, não era em passarinho que eu ia mesmo botar reparo.
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