Dona Elvira representa um filão que, ao lado do intercâmbio para crianças a partir de 8 anos, aqueceu o mercado de cursos no exterior nos últimos anos. Segundo a operadora de turismo CI, especializada em intercâmbio, nos últimos cinco anos houve um crescimento de 40% no número de clientes da chamada terceira idade. "Os aposentados brasileiros estão vivendo mais e com maior poder aquisitivo", diz Cesar Bastos, vicepresidente da Belta, associação que reúne as operadoras do setor de cursos e estágios no exterior. "Eles usam a internet e percebem que saber inglês é importante. E muitos são descendentes de europeus que desejam reviver suas origens por meio do estudo da língua." A paulistana Neuza Baptista, aos 81 anos, passou 15 dias estudando italiano na Europa. Acompanhada de duas filhas, perambulou por Florença, relembrando o passado de seus antepassados italianos. "Se eu pudesse ir outra vez, iria. Eu era a única idosa na sala; todas as outras estudantes eram jovens. Mesmo assim, nunca fui tão bem recebida, tanto por eles quanto pelos italianos", diz.
Se a terceira idade tem feito bom proveito do intercâmbio cultural, a outra extremidade da pirâmide etária vai na mesma toada. "Nos países asiáticos e europeus, há muito tempo crianças com menos de 10 anos viajam sozinhas para aprimorar o conhecimento em línguas", diz Celso Garcia, diretor da CI. "Tentamos uma turma assim há cinco anos, mas não deu certo. Dois anos depois, bancamos a viagem, sem restrição de número de clientes. Funcionou." Hoje, não há idade mínima estabelecida para esse tipo de viagem. A paranaense Beatriz Marcon, de 7 anos, estudou inglês no Canadá durante três semanas. A mãe, professora de inglês na cidadezinha de São Miguel do Iguaçu, no interior do Paraná, leva grupos ao Canadá há alguns anos. Enquanto as crianças mais velhas estudavam no campus da universidade, Beatriz precisava ir, todas as manhãs, até uma escola especial. "Nos dois primeiros dias, ela estranhou muito, porque ficava sozinha das 9 às 15 horas", diz a mãe, Louvane. "No fim, Beatriz disse que queria morar no Canadá. Senti que ela ficou mais segura. Agora pensa no futuro e está independente. Sem falar no inglês, que evoluiu bastante." Vale lembrar que crianças com menos de 10 anos precisam estar acompanhadas pelos pais.
Neste ano, a CI mandou 600 crianças para o exterior, um crescimento de 60% em relação ao ano passado. São dez horas de aula por dia. O lugar para onde os pré-adolescentes brasileiros mais viajam em busca de aprimorar o inglês é a Inglaterra, seguida de Canadá e Estados Unidos. O paulistano Ariel Ghelfond, de 11 anos, acaba de chegar de Vancouver, no Canadá. "Fui sozinho. Na minha turma havia brasileiros, mexicanos, alemães e até um polonês", diz. "Meu inglês melhorou muito, principalmente porque os monitores não ficavam em cima da gente o dia todo. A gente podia pegar um táxi e visitar os lugares da cidade e falar quanto inglês quisesse." Em comum, estas histórias - dos jovens e dos jovens só no espírito - têm um desejo de descobrir coisas novas. "Foi o início de uma nova fase na minha vida", diz dona Elvira, do alto de seus 79 anos. Uma ideia que encontra eco nas palavras de Beatriz, 72 anos mais jovem: "Agora sei o que quero fazer quando crescer: viajar".
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