"Amazing", dizia um inglês no elegante hall de entrada do Museo Botero. Bogotá tem museus de classe mundial. Você não verá nada parecido em nenhuma outra capital sul-americana. O Museo Botero conta com as doações do acervo particular do mais famoso artista plástico colombiano, conhecido por suas figuras gordas - que, num exame menos apressado, se revelam sombrias demais para ser chamadas, como são chamadas vulgarmente, de "gordinhas". A entrada é gratuita, e a guia Maria Inez nos leva pelos corredores, explicando a obsessão de Fernando Botero pelo volume. Além das 123 obras do mestre, há outras 85 de gente como Picasso, Chagall, Renoir, Dalí e Monet. Ao lado fica a Casa de la Moneda, com sua fantástica coleção de numismática contando a história da Colômbia. Perto da Plaza Santander está o Museo del Oro, com 34 mil peças das principais culturas pré-colombianas. Esse metal, que havia em abundância insana, fez sua glória e sua tragédia. O que se vê no Museo del Oro é o testemunho de uma cultura rica, no sentido literal, e misteriosa. Aquelas peças, de valor incalculável, são a migalha que restou do saque promovido pelos conquistadores. A reurbanização de uma área denominada Zona Rosa, ou Zona T, ainda legou à capital uma agitada vida noturna e lojas bacanas em pequenos shoppings chiques. Você não se impressiona com Bogotá na chegada. É no momento de ir embora que ela deixa sua marca.
Cartagena é o oposto. Um grande e clássico cartão-postal. É como Salvador, só que com colombianas vendendo frutas nas ruas em vez de baianas com acarajés. É como Havana, só que mais rica. É como Parati, só que viva e cheia de gente. Nos anos em que a Colômbia ficou ao deus-dará por causa do crime, ela foi, de certa maneira, poupada. "Até os traficantes amam esse lugar", contava Natalia Ramírez, frequentadora do restaurante mais concorrido, o La Vitrola (que serve um mero que você só comerá se reservar com pelo menos uma semana de antecedência). Capital do departamento de Bolívar, ela é fácil de entender. A parte histórica, que é o que interessa, é cercada pela muralha que começou a ser construída no século 16 e foi terminada três séculos depois - ironicamente, quando sua importância diminuíra. Foi o maior porto do império espanhol para escoar o ouro das Américas. A linda muralha, que a define e lhe dá personalidade única, tentou protegê-la dos ataques de piratas, como Sir Francis Drake, o bucaneiro inglês que a incendiou e exigiu um resgate milionário da coroa espanhola. A mitologia dos piratas e dos heróis que os combateram impregna as ruas de paralelepípedo, tomadas de casinhas de fachadas coloridas e varandas de treliça, uma influência árabe (as mesmas varandas que vi no Marrocos).
O assédio aos turistas é pesado, mas nada a que não estejamos acostumados. Perto da catedral do padroeiro San Pedro Claver, negras gordas e bonitas, em vestidos amarelos e arranjos de cabelo, vendem frutas e se oferecem para as fotos. São as palenqueras. Se você pagar, elas sorriem para a câmera e se oferecem com simpatia (colombianos adoram usar diminutivos: "amorzito", "pesito" etc.). Se você não pagar, esqueça. A restauração de Cartagena começou nos anos 1980 e 1990, e muitos dos antigos palacetes de nobres e comerciantes ricos viraram hotéis-butique de primeira classe - e que, atualmente, podem ser reservados por uma pechincha. São casarões com pé-direito de 4 metros e um portão pesado de madeira, que abre para pavilhões com espaço para uma piscina, um ofurô e outros mimos. Carruagens (os huelepedos, ou "cheira-puns") servem de táxi e fazem um tour que inclui o Sofitel Santa Clara, provavelmente o melhor hotel local, que ocupa o lugar de um convento. Elas param também diante da mansão de Gabriel García Márquez, chamada La Casa del Escritor. "Gabo" é uma sumidade cartagenera. É provável que, se houvesse uma enquete para saber quem é o colombiano mais querido, ele perdesse apenas para a loira-belzebu Shakira. Nascido em Aracataca, a algumas horas dali, o escritor e Nobel chegou no fim dos anos 1940 e ficou. Um de seus romances mais notórios, O Amor nos Tempos do Cólera, é passado aqui. Mora em San Diego, numa vila modernista com um muro alto.
A cidade histórica é dividida em três bairros: o centro, onde fica a maioria das igrejas, dos museus e das plazas; San Diego, com casarões e o Sofitel Santa Clara, além de um ou outro restaurante e bar; e Getsemaní, que ainda não foi reformado totalmente, onde ficavam judeus, muçulmanos, negros e soldados. Perto de Getsemaní ergue-se o monumental Castelo de San Felipe de Barajas, o maior forte construído pela Espanha nas Américas, com seus corredores estreitos e baixos que não levam a lugar nenhum, truque para enganar invasores. Curiosamente para uma cidade praiana, não há uma praia decente. Quer dizer, não como você imagina que deva ser uma praia no chamado Caribe colombiano. Elas são de areia dura e mar azul-escuro. Nos últimos 20 anos, Cartagena cresceu para além das muralhas e alguns condomínios foram erguidos em Barranquilla, uma espécie de Barra da Tijuca. Não faça como eu. Não pegue uma bicicleta para explorar Barranquilla. Primeiro: elas são feias; segundo: elas são feias; terceiro: a frequência não é das mais familiares. Mas nós estamos no Caribe e queremos Caribe. Então fazemos o seguinte: vamos até o porto e pagamos por uma excursão para o arquipélago de Islas del Rosario. O passeio de um dia todo, com uma passagem no espetacular e organizado Oceanário, entrega a mercadoria. Mas o trajeto não é feito de leite e rosas. A lancha tem mais gente do que deveria. Um dos motores pode quebrar, e você ficará quase à deriva. Não faça como eu, número 2: não se sente na proa. Sente-se nos fundos. Porque, quando os dois motores estiverem a mil, a frente vai se levantar e o barco vai bater na água impiedosamente e sua lombar vai se recordar desse passeio o resto de seus dias. Isla Barú é a parada clássica da lancha. É o que se espera de uma ilha caribenha selvagem. O retrato do paraíso. Ainda que você tenha de lidar com as mulheres que aparecem do nada, alisando seus pés e oferecendo massagens por alguns "pesitos".
O grande barato de Cartagena, enfim, não está no fato de ser um paraíso tropical. Monte em sua bike e percorra a muralha. De preferência, ao pôr do sol. Tudo quase perfeito. Uma versão do Projac. Até que você vê, encostado na muralha que já recebeu balas de canhão há tantos séculos, um campo de futebol com um punhado de sujeitos correndo atrás de uma bola de futebol, gritando palavrões e ouvindo vallenato, a música típica. E percebe que Cartagena tem falhas demais para ser aquele romântico cartão-postal, perfeito, que a agência de turismo vende. E isso é sua grande virtude.
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